PF detalha contratos milionários, aeronaves e experiências de luxo ligados a Vorcaro e família de Moraes
Relatório aponta contratos com o escritório da esposa do ministro, negociações envolvendo cotas de jato e helicóptero, além de viagem a Londres e recepção em Campos do Jordão; escritório contesta parte das informações.
A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master reuniu contratos milionários, negociações envolvendo cotas de aeronaves, despesas de viagem internacional e experiências de luxo relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e a integrantes de sua família.
Os episódios constam de documentos analisados pela PF e têm como um dos principais pontos a relação financeira entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Contrato previa R$ 3 milhões líquidos por mês
Um dos contratos previa o pagamento de 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos pelo Banco Master ao escritório.
Considerados os tributos previstos no documento, cada parcela alcançaria R$ 3.646.529,77 em valores brutos.
A Polícia Federal também analisou os metadados de duas versões da minuta encaminhadas durante a negociação.
Na primeira, enviada por Viviane a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024, o arquivo registrava como responsável pela última modificação um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Situação semelhante foi identificada na versão final encaminhada em 17 de janeiro. Segundo a análise da PF, a última alteração havia sido registrada pelo mesmo usuário em 15 de janeiro.
O dado, entretanto, precisa ser interpretado com cautela. O registro nos metadados indica que um usuário com aquele nome realizou alterações no arquivo, mas, isoladamente, não comprova quem estava fisicamente utilizando o computador nem exatamente quais mudanças foram realizadas.
O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 por Daniel Vorcaro e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva.
Informações divulgadas posteriormente pelo escritório afirmam que Moraes teve acesso à minuta para avaliar, a pedido do setor de compliance, a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação.
PF encontrou R$ 13,6 milhões em comprovantes
Entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025, a investigação localizou quatro comprovantes de transferências destinadas ao escritório de Viviane.
Cada pagamento identificado era de R$ 3.422.268,14 após descontos específicos, somando aproximadamente R$ 13,6 milhões.
Conversas analisadas pela PF também mostram a importância que Vorcaro atribuía aos repasses. Em uma delas, o banqueiro classificou o pagamento como o “mais importante” e afirmou que não poderia haver atraso.
Segundo acordo poderia chegar a R$ 50 milhões
Outro ponto analisado pela Polícia Federal envolve uma segunda negociação de honorários, com limite de R$ 50 milhões líquidos ao longo de 36 meses.
A proposta estava relacionada à Viking Participações, empresa da qual Vorcaro é sócio, e permitia que os valores fossem quitados não apenas por transferência bancária, mas também por meio da entrega de bens ou serviços.
Em maio de 2025, foram discutidas alternativas pelas quais R$ 40 milhões seriam correspondentes a cotas de duas aeronaves, enquanto outros R$ 10 milhões seriam relacionados às despesas de utilização.
Os bens mencionados eram um jatinho Legacy 650 e um helicóptero Airbus EC 155 B1. Relatórios e mensagens analisados pela PF também registram diálogos sobre a utilização dessas cotas.
O escritório Barci de Moraes, porém, afirmou que essa segunda proposta não foi aceita nem assinada e sustenta que não recebeu as cotas das aeronaves ou outros ativos previstos na negociação.
Recepção em Campos do Jordão
A PF também analisou uma recepção organizada em 30 de dezembro de 2023, na região de Campos do Jordão, em São Paulo.
Mensagens indicam que Vorcaro determinou a preparação de uma estrutura especial para nove convidados e quatro seguranças no Six Senses Botanique.
A programação envolvia almoço, atendimento personalizado, chef e atividades no local. Em uma das mensagens, Vorcaro pediu que fosse oferecida uma “experiência completa” aos convidados, classificados por ele como “ultra VIPs”.
A cronologia analisada pela investigação relaciona o encontro a Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes.
Evento em Londres também aparece na investigação
Outro episódio analisado pela PF envolve o I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, realizado entre 24 e 27 de abril de 2024.
Segundo o material reunido pelos investigadores, despesas relacionadas à participação no evento eram custeadas dentro da estrutura organizada para o encontro.
Uma mensagem atribuída a Moraes convidava o ministro Gilmar Mendes para participar do fórum e informava que o evento era organizado pelo ConJur, Correio Braziliense e Banco Master.
O relatório também aponta participação de Moraes em discussões relacionadas a convidados e à programação.
Durante o encontro, uma estrutura específica de transporte foi disponibilizada para participantes considerados VIPs, com veículos Mercedes-Benz S-Class e motoristas. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aparecem entre os nomes citados no material.
Na preparação de uma segunda edição, prevista para 2025 e que não chegou a acontecer, mensagens analisadas pela investigação também tratam da emissão de passagem aérea para Moraes.
Investigação reúne contratos, mensagens e registros
O conjunto de informações não significa, por si só, que todas as negociações identificadas tenham resultado na efetiva transferência dos bens ou que as condutas analisadas configurem ilícitos.
No caso do segundo contrato de R$ 50 milhões, por exemplo, o escritório de Viviane Barci de Moraes afirma expressamente que a proposta não foi aceita e que nenhuma transferência dos ativos previstos foi concretizada.
A Polícia Federal segue analisando documentos, mensagens e registros relacionados à conexão entre Daniel Vorcaro, empresas ligadas ao antigo controlador do Banco Master e pessoas citadas na investigação.
Com informações do g1 e documentos da investigação da Polícia Federal.
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